segunda-feira, 12 de julho de 2010

OS VERSOS DO CAPITÃO

> Tira-me o pão, se quiseres, tira-me o ar, mas não me
> tires o teu riso. Não me tires a rosa, a lança que
> desfolhas,a água que de súbito brota da tua alegria,a
> repentina onda de prata que em ti nasce. A minha luta é
> dura e regresso com os olhos cansados às vezes por ver que
> a terra não muda, mas ao entrar teu riso sobe ao céu a
> procurar-me e abre-me todas as portas da vida. Meu amor,
> nos momentos mais escuros solta o teu riso e se de
> súbito vires que o meu sangue mancha as pedras da rua, ri,
> porque o teu riso será para as minhas mãos como uma espada
> fresca. À beira do mar, no outono, teu riso deve
> erguer sua cascata de espuma, e na primavera, amor, quero
> teu riso como a flor que esperava, a flor azul, a rosa da
> minha pátria sonora. Ri-te da noite, do dia, da lua,
> ri-te das ruas tortas da ilha, ri-te deste grosseiro rapaz que
> te ama, mas quando abro os olhos e os fecho, quando meus
> passos vão, quando voltam meus passos, nega-me o pão, o
> ar, a luz, a primavera, mas nunca o teu riso, porque
> então morreria.

> Pablo Neruda

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