Por Misael Nóbrega de Sousa
Os bichos que não pensam e àqueles que pensam que pensam, não merecem dividir o mesmo espaço, porquanto são diferentes apenas na ambição. Os dois vêem no instinto a única condição de ferir. O ato é lícito, tão somente, para o mal. Os que chamamos de “bicho” não temem a armadilha do homem; vão para a morte, igual uma rendição de propósito. E se reagem é, por acaso, espasmos de vida. A atitude do executor não é faculdade da inteligência ou sobrevivência: é, na realidade, um assassinato; uma afronta à natureza, com os seus ciclos e cadeias alimentares. O morticínio já se instaurou entre os que “pensam...” por falta do que fazer. Os mamíferos que povoam a terra deixarão de ser elementos plásmicos para ilustrarem uma fábula qualquer. O homem, o último das criaturas. E tudo será, então, digno do mais amistoso, tédio. Até que forças divinas e sobrenaturais se convertam em manhãs de domingo; e possam gerar um novo ente para que haja, também, outro começo. Após a saturação deste cenário debilitado, e assim conforme os desígnios e regras posteriores ao “gran finalle”, roga-se no porvindouro uma raça menos arrogante.
E que nasçam das pedras como os rios...
Deste modo, haverão de se orgulhar da existência. E duvido que engatinhe, antes de se por em pé. O novo habitante da terra prometida, enfim, terá uma experiência de amor. E, assemelhando-se ao pólen, irá confiar a cada pareceiro uma porção do antídoto, antecipando-se ao caos. Todos poderão viver plenamente sem precisar da razão. Na inocência, verão apenas a luz. E na eternidade dos dias que se passarem... - O descanso sossegado das horas e a certeza de que aquilo é mesmo a felicidade. Não haverá a cobiça do paraíso, também pudera: naquela terra tudo será de encantamento. E a abóbada celeste servirá de inspiração para voar, portanto, referência do que é céu. Anjos tocarão as melodias de Orfeu e tanto o nascedouro como o morredouro serão motivos de celebração por três dias – assim, não haverá outra coisa a fazer senão dançar – e, na medida exata da separação dos corpos, para que também, a proximidade física não seja um influenciador dos mundos. É na pia batismal dos sonhos que encontro a dádiva da vida. E só depois de tudo consumado entenderemos, enfim, o que fomos – e assim, libertaremos a nossa alma do inferno que não existe. Para sermos verdadeiramente livres temos que desistir deste lugar.
Professor e jornalista
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